Halloween vira "carnaval de protesto"

Nem começou a festa ainda, mas as fantasias já estão rasgadas. Nunca houve um Halloween tão político quanto este nesta cidade. Na noite de sábado, um dia antes dos desfiles e dos bailes oficiais, eu rodei o East e o West Village, Tribeca e o Soho e vi cenas que em duas décadas e meia jamais havia visto. Este Halloween se tornou um "carnaval de protesto" e está sendo usado pelos democratas, assim como pelos republicanos, como propagandas ambulantes.

Muitas vezes a coisa termina em confusão e, numa cena perto da Saint Mark's Place (marco da contracultura das décadas de 60 e 70), houve um tumulto que resultou em pancadaria. "São esses "bridge and tunnel people" [pessoal que vem pelo Holland e Lincoln Tunnel, de Nova Jersey, literalmente, a dez minutos da ilha de Manhattan] nos provocar, usando máscaras de George W Bush e nos chamando de homossexuais." Muita gente se fantasiava, anteontem, com máscara do ex-ditador iraquiano Saddam Hussein e cartazes dizendo "Elect me" (elejam-me), e outros se vestiam de mísseis com dizeres "We are the weapons of mass destruction" (nós somos as armas de destruição em massa).

Muitos Osamas bin Ladens pelas ruas, muita gente com a máscara de Michael Moore, e muito republicano (quem diria?) xingando-os, enquanto desfilavam pela Bleeker Street ou mesmo pela Union Square. Foi na verdade a primeira vez que eu notei que em Nova York existem seres republicanos e que não vêm de Nova Jersey. São moradores e nativos.

Bate-boca
Entabulando conversa com um deles, no prédio onde moro, procurei ouvi-lo: "Vou votar em Bush porque tenho medo de mudanças. Não tivemos mais nenhum ataque doméstico desde o 11 de Setembro [2001]". "Mas o que o senhor me diz sobre o equivoco de invadir o Iraque e a morte de 100 mil civis iraquianos?", perguntei. "Acho que temos de tomar todas as precauções possíveis..." No meio de sua resposta, o saguão do prédio começou a se encher, e as pessoas, ouvidos atentos, se intrometeram na hora.

"O que ele está dizendo é um absurdo. Tenho vergonha de ser do mesmo país que você", berrava, literalmente, uma senhora de uns 60 ou 70 anos, com um back up de adolescentes vestidos como se estivessem vindo de um concerto de rock da década em que guerra era uma palavra do passado e paz não era somente uma utopia, mas era a ordem do dia. Sábado foi somente o ensaio. Faltava ver o que a festa/protesto de ontem nos traria. Eu iria para Williamsburg e para Dumbo, os bairros de Brooklyn mais, digamos, "artísticos".

Queria ver qual seria a fantasia deles ou se simplesmente estariam olhando para o skyline de Manhattan com aquele famoso efeito de distanciamento brechtiano, chacoalhando as cabeças, o que, aliás, vem a ser muito saudável numa hora dessas.

Estamos em plena TPM da terça-feira que vem. Vai ser um deus-nos-acuda.

Gerald Thomas é diretor teatral

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