Arte bizantina é mensagem para Bush

Esse espaço é curto para explicar a complexidade étnica e estética do Império Bizantino. Então, vamos ao que interessa: a exposição de arte bizantina do Metropolitan Museum.

Como a época era das conquistas sangüinárias, há algo de muito comum entre esse período e o que o mundo de hoje vive, a era Bush. E não posso mencionar todos os intelectuais citando Harold Bloom em sua introdução à nova tradução de "Dom Quixote": "Qual é o objeto verdadeiro na questão de Dom Quixote? Essa pergunta não tem resposta. Assim como não temos resposta para os motivos autênticos de Hamlet. O(s) autor(es) não nos permite saber". Bloom defende que ambos, Quixote e Hamlet, têm questões que reverberam muito além do plausível. E assim é com a nossa era. Quem a entende? A coisa mais engraçada na passeata no último dia 20 foi alguém vestido de brócolis com a seguinte placa: "Se o Iraque plantasse brócolis, a invasão não teria acontecido". Tão simplista? Pode ser. Mas imagino que os habitantes da era elizabetana também não agüentavam mais a ilha britânica até Shakespeare escrever sua mais autobiográfica peça, "A Tempestade", quando absolveu seus detratores e apontou para o futuro, para a Renascença, que aflorava como um sinal de que Deus existia acima de tanta opressão.

Nessa exposição, a estética é sufocante. Tive que sair duas vezes para respirar. Não porque a beleza era demais para mim; eram os comentários dos convidados. Explico: "Byzantium, Faith and Power" é algo "demasiado" e é preciso ter estômago e preparo histórico. O que está exposto aqui sem precedentes veio de países como Montenegro, Croácia, Macedônia, enfim, o que chamávamos de Iugoslávia e de Grécia.

Mas cair aqui pode ser uma armadilha para o desavisado, como o colega de cigarro nas escadas no Met. Eu provocava: "Por que está aqui?". Afrouxando a gravata e sem querer dizer com palavras, eu entedia tudo. Ele não queria. E o que tem a América para absorver do mundo bizantino? Nada ou pouco, infelizmente. Já Nova York é outra coisa, quem vive aqui não é a América. Ainda sufocado pela exposição, procurei outra pessoa e perguntei sobre o Império Otomano. "What?". "Otomano" para eles deve ser uma avenida no bairro de Queens como Utopia Avenue. "Veio ver a exposição?", perguntei. "Sim, mas vim pegar um pouco de ar... Tudo me parece muito islâmico. O Met quer promover a arte islâmica? Eles não são nossos inimigos?"

Mas é importante notar que nem sempre foi assim aqui, terra de Jackson Pollock e Barnett Newman; para onde veio Rothko, De Kooning, Max Ernst e, o maior de todos, Marcel Duchamp. Foi aqui que Warhol acabou de vez com os ícones. E foi aqui que houve tudo de bom e de mal porque nem tudo é branco e nem tudo é negro nesse espectro de cores que nem sequer sabemos enxergar, sabendo ver somente o momento.

E o momento é horrível: Bush de um lado e Michael Jackson do outro. Jackson é o espelho do que vivemos aqui nessa pré-bizantina sociedade, que nos vende algo que ainda não somos e que nos quer fazer pensar no que seremos: o império mais potente do mundo. Talvez, por isso, a exposição seja tão relevante para os poucos que a entendem. Queda de império, sangue jorrando, mas a mensagem para Bush é uma só: "Tudo aquilo que coube tão bem dentro da lata de sopa Campbell, de Warhol, ícones e antiícones não podem morrer".

Gerald Thomas é diretor teatral

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