FOLHA DE SAO PAULO - 19 de Setembro de 2001

GERALD THOMAS

ESPECIAL PARA A FOLHA, EM NOVA YORK

Wanted dead or alive

Essa frase dita por Bush seria de deixar qualquer pacifista horrorizado. Ela nos remete aos cartazes dos velhos "westerns". Bush começou seu discurso moderadamente, falando em justiça. Mas, de repente, sacou a pistola. Esse parece ser o clima também entre artistas e intelectuais americanos, silenciosos perante a crise.

Esperava-se mais da comunidade intelectual? Certamente não se esperava o que aconteceu ontem no programa de David Letterman: o âncora Dan Rather, conhecido pela sua frieza, estava aos prantos. O próprio Letterman estava aos prantos, pedindo desculpas por achar que não é hora de piada. E não foi nada engraçado mesmo. Dan Rather, emocionado e abalado (isso só havia acontecido com seu predecessor, Walter Cronkite, quando JFK foi assassinado), advertia o país que a luta pela frente será sem precedentes.

"A América jamais voltará a ser o que foi, e nós jamais poderemos cantar nossos hinos e canções da mesma forma" dizia, aos prantos.

"E não é somente a América que estará em jogo", disse. "São todas as liberdades e todas as conquistas modernas" (quase que repetindo as palavras de Cacá Diegues para mim no telefone).
"Eles odeiam o que representamos. Não querem tomar conta do nosso país nem o nosso dinheiro. Querem nossa extinção em troca de valores medievais. São os seguidores do culto do ódio."

Rather sabe do que está falando. Ele já esteve no Afeganistão diversas vezes. Sentou frente aos grandes "líderes do mal". Esteve em todos os lugares, reportando do "ground zero" em todas as crises mundiais. Ele é um dos três âncoras americanos, junto com Tom Borkaw (da NBC) e Peter Jennings (da ABC). Rather parecia refletir o clima da classe artística.

Pacifismo? Não. Essa palavra esta "out" nos EUA. O próprio Letterman ontem dizia: "Let's go get them". Wow! Cruzada pela paz? Ninguém está mostrando as caras. "São eles ou nós", diz o reitor de letras da New York University, uma frase inesperada vinda de intelectual do mundo literário.

"Dessa vez é diferente, é sujo. Estamos lidando com terroristas e não respondendo a nenhum conflito mundial: estamos lidando com malucos que não medem consequências. São suicidas e podem querer suicidar o mundo", disse Peter McBride, filho de Sean McBride, ex-líder do Sinn Fein (e histórico pacifista da Anistia que foi laureado com o Nobel da Paz).

Os cineastas americanos com quem falei (que preferiram o anonimato) são conhecidos pacifistas. Unânimes, diziam que "esse não é um momento de paz. Esse conceito mudou para sempre. Teremos que repensar o que defendíamos". "Prefiro a nossa sobrevivência do que um mundo ocupado por ódio e inferno."

Será que o resto do mundo tem idéia do que é tentar dormir (sem consegui-lo), sentar na beirada da cama e levar as mãos a cabeça?

Um líder pacifista negro disse que "a guerra santa é uma guerra burra. São os autodenominados comandantes de um deus sem regras justas. São loucos, autodeclarados que defendem algo que só caberia no manual dos maiores criminosos do mundo".

Ontem, vi uma cena da qual jamais me esquecerei: aqui na esquina tem um pub cyber-clubber-punk (não exatamente conhecidos pelo seu pacifismo). Em estado de total catatonia, eles observavam pela TV imagens do resgate de um caminhão dos bombeiros, saído dos escombros do WTC.

A música parou. Acho que ouvi alguns soluços. Vindo dos piercings. Os valores estão de cabeça para baixo. É hora de pensar alto, pois o silêncio do vizinho pode ser um truque de um inimigo disfarçado. Esse é o clima de hoje nesse "Admirável Novo Mundo": a pomba da paz está suspensa e o urubu tomou o seu lugar.

GERALD THOMAS é autor e diretor teatral.



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