FOLHA DE SAO PAULO - 16 de Setembro de 2001

GERALD THOMAS

ESPECIAL PARA A FOLHA, EM NOVA YORK

A boa e velha águia americana

Quando Felippe Petit, um acrobata francês (uma mistura de Evil Knievel com Marcel Marceau da década de 80), esticou uma corda entre as duas torres do WTC no 105º andar e atravessou invicto, somente minha geração aplaudiu.


Imediatamente preso quando chegou do outro lado, o ato de Petit ganhou um significado estrondoso para a minha geração: era a arte "dominando" o grande sistema e, ao mesmo tempo, endossava aquelas torres como sendo o primeiro "produto" arquitetônico de uma nova era.


O skyline de Nova York conta uma história cronológica. Não é simplesmente um monte de seringas apontadas para as veias do céu. O Empire State e o Chrysler Building, que já estavam na nossa herança antes de nascermos, são dois marcos de duas eras distintas do art déco. Como o nome já diz, o Empire tem um significado conquistador, assim como a bandeira americana plantada na Lua.


O Chrysler já é um pouco mais Batman, com suas gárgulas e topo de metal, ele simboliza Gotham City, tem referências dantescas e traz o mundo dos comics para a realidade cotidiana. Depois tem a introdução do modernismo, com a ONU de Le Corbusier, e o Seagram de Gropius, e o ex-Pan-Am Building (hoje Metro Life) já vem repleto de lembretes de que o futuro será feio e prático, descartável e funcional. Depois chegou o Citicorp para literalmente traçar uma diagonal entre todos esses estilos, mostrando os primeiros sinais de pós-modernismo.


Pois eu vi o WTC crescer. Pela primeira vez, assim como um bom produto da era de Warhol, que fez da Marilyn várias, o arquiteto chinês Pei começou a usar a duplicação da imagem e construiu uma espécie de ilusão de ótica, iniciando uma era de clonagem, o que Warhol celebrou com a lata de sopa Campbell.


Manhattan foi amputada e ainda não entendo a nova configuração desse corpo moribundo.


Nos anos 80, eu vivia lá em cima do WTC. Levava todos os meus amigos turistas (com o maior orgulho) para o observatório no último andar e, ocasionalmente, jantava no Windows on the World (que Helio Oiticica e eu carinhosamente batizamos de "comida feita pelos deuses", pela altura em que o restaurante estava, e não pelo sabor da comida).


Foi no seu andar térreo que a CNN deu início a uma brilhante carreira inovadora, amadurecendo a televisão americana.


Foi lá que chegou o primeiro legítimo croissant, vindo de Concorde todos os dias de Paris. Lembro-me de estar na fila da French Bakery no solo, e ouvir as pessoas discutindo a pronúncia desse estranho objeto chamado croissant

.
O WTC era um objeto consciente de que a obra de arte e de vanguarda está sempre na contramão. Não queria fazer parte do Midtown, junto com seus irmãos gigantes, preferindo ficar isolado, namorando quase que exclusivamente a Estátua da Liberdade, a um mero vôo-pulo dali.


Ver o colapso disso tudo ainda me põe fora de controle. Ver o WTC levando dois golpes mortais de uma vez, foi um massacre emocional do qual jamais nos refaremos. Ver um gigante cair, como em Swift ou em Davi e Golias, é sempre um choque repleto de leituras semiológicas.


Mas agora o fato já teve tempo suficiente para virar tema, lema e assunto como os políticos gostam. Já se reuniram bastante e o que começou como uma terrível tragédia passa agora a categoria de drama pesado, repleto de ufanismo e música estóica, hinos, celebrações, vigílias, levantando o espirito nacionalista e restabelecendo a auto-estima mais alta do mundo, a americana. Não é exatamente uma fênix que nascerá das cinzas num futuro próximo, mas a boa e velha águia americana, com nova força total.


Senti isso na pele (e debaixo de um dilúvio que caía sobre NY na madrugada de quinta para sexta). Fui ser voluntário e, durante a madrugada, integrei uma galera que alimentava os heróis dessa operação, a brigada de incêndio. Passei a madrugada levando café, suco de laranja e água para eles.


Posso ser sincero? Em 47 anos de uma vida feita de polêmicas, prêmios, vaias e reconhecimento internacional como artista de teatro, nada, mas nada mesmo me deu tanto prazer e orgulho do que alimentar os heróis do meu país, justamente no terreno onde, até terça-feira de manhã, reinava único o "meu" World Trade Center.

GERALD THOMAS é autor e diretor teatral.



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