FOLHA DE SAO PAULO ILUSTRADA
Réplica

Crítica ao romance de Contardo foi superficial

Fazer a crítica literária de um livro escrito por um alguém que é, essencialmente, um "leitor crítico do mundo", como Contardo Calligaris, não é fácil. Fazer a crítica de um romance que parece, a princípio, ser "de" amor, mas é "do" amor e não parece ser notado, bem, aí então os critérios lingüísticos ou neurolingüísticos do crítico devem ser colocados em questão.

Ah, hermenêutica, semântica, erros quânticos e tetas mântricas, não é mesmo? Não, puro campo de visão fechado mesmo ou falta de ...paixão. Ou mania de querer enquadrar tudo, tipo: "Isso é romance epistolar, já esse aqui tem "igreja + pai", então vira romance do tipo "igropai'". Haja saco!

Vamos ao ponto: a rasa e superficial resenha de sábado passado que Adriano Schwartz fez do livro fascinante de Contardo Calligaris, "O Conto do Amor", me tirou do sério (se é que isso existe, mas existe!).

Se estivéssemos no campo do "gostei ou não gostei", poderíamos simplesmente levantar o polegar, como fez até o início deste mês (e acaba de se despedir da televisão americana) o crítico Roger Ebert, do "Chicago Sun Times". Mas aqui estamos num terreno coalhado de emoções delicadas e palavras escolhidas e situações deliberadas. A crítica, se não for capaz de acompanhar, cai fora!

Contardo tece um jogo tênue de linhas tão estranhas! Elas são doces e severas, ásperas e emocionantes e, às vezes, tudo ao mesmo tempo. Ou seja, as entrelinhas e o fascinante jogo intercalado de amor e desamor, afeto e desafeto; um jogo DO amor, e não somente DE amor, e, portanto, não somente mais uma "love story" embebida de fluxos verborrágicos ou hemorrágicos de códigos davincianos ou borgianos (já que Schwartz cita Umberto Eco e "O Nome da Rosa"). Ufa!

Não nego meu envolvimento passional com o livro, já que passei madrugadas acordadas aqui em Nova York fazendo a revisão de sua edição inglesa. Mas o original em português é de uma beleza única. Todo o mistério que se esconde por trás da morte de um pai (ou de uma possível "outra vida" de um pai e uma vida depois da morte), toda essa relação estranha e distante com esse pai, distante e ao mesmo tempo ...indescritível. Daí a semiologia que o crítico não soube "ver", mas que está nos detalhes dos afrescos e de quem os teria pintado ou "assistido" a pintar... E de quem os está arquivando nos dias atuais: o tempo é crucial. No entanto, ignorado na crítica. Contardo lida com a questão do tempo de uma maneira "unique" e sublime, o paralelismo dele, a sua invisibilidade, como eu raramente senti.

Um outro mundo

E toda essa vida oculta extratemporal, que acaba revelando um outro mundo: um mundo, digamos, "real". Uma mulher.

Uma mulher que possibilita as viagens para que Carlo (personagem principal) possa visitar essa outra mulher (quem será ela? E o que eles fazem juntos, além de saborear o melhor café no Caffè Rivoire de Firenze?).

São tantos os pequenos detalhes, mas que o prendem na beira da cama -não pelas rajadas de metralhadora porque "acharam o mapa da mina", como sugere o crítico, nem porque alguém será "enforcado em Esperanto" ou toda uma biblioteca será queimada, como no conto milionário de Eco. Aqui, com Contardo, a gente fica com o olho bem aberto, mais aberto ainda, como se fosse (talvez) um Bataille descrito com uma minúcia de alguém que está vendo o seu tempo passar com a tristeza e a certeza de que o toque de alguém que se ama jamais chegará de verdade, porque essa verdade só existe pelo curto, muito curto tempo em que um fósforo está aceso, porque a chama de um fósforo queima o dedo que o segura, e aquela chama poderá se apagar quando as duas mãos se tocarem.



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