FOLHA DE SAO PAULO ILUSTRADA

Grande imitador de Beckett, Pinter sempre me irritou

ESPECIAL PARA A FOLHA, DE NOVA YORK

No vídeo de "aceitação" que Harold Pinter, que morreu no dia 24 de dezembro, gravou para a "turma" do Prêmio Nobel de Literatura em 2005, ele explica, em detalhes quase assustadores, como pensa uma peça, como monta um espetáculo. Ele diz que vê a cor negra e, a partir daí, constrói algo, e que não pensa nos nomes dos personagens. Para Pinter, os personagens são, em princípio, A, B, C.

Pinter sempre me irritou imensamente, era um grande imitador de Samuel Beckett. Um pretensioso imitador de Beckett que nesse vídeo se "dedura" de uma forma explícita. Ah, sim. Ele aceitou seu Nobel. Beckett, além de não dar a menor bola, em 1969, não fez discurso e não apareceu. Pinter era um enorme defensor de Slobodan Milosevic e outros cruéis ditadores!

Não é à toa que um Pinter completamente debilitado e derrotado pelo câncer, em 2006, aparece como ator numa peça de Beckett, a mais chata de todas: "A Última Gravação de Krapp". O que isso quer dizer? Que o autor não se pensava tão autor assim, mas servia ("The Servant") a um outro autor maior que ele: Samuel Beckett. Isso tudo não quer dizer que esse judeu extremista casado com uma mulher da altíssima sociedade britânica (Lady Antonia Fraser) e também um alcoólatra que enchia o saco de Beckett com perguntas, cartas e pedidos não tivesse lá uma grande importância. E a imprensa brasileira quase não registrou a morte dele. Mas o que importa tudo isso? Ah, os silêncios nas peças de Harold Pinter. Sim, eles nos causavam um certo desconforto. Causavam na plateia dos anos 60 e 70 um enorme, digo, enorrrrme desconforto. Justamente por ser um outsider, Pinter via a aristocracia britânica criticamente, mas queria desesperadamente fazer parte dela.

Teatro de gravata

Em seu casamento quase doentio com Lady Antonia Fraser (cujos livros vendiam mais que os dele), Pinter conseguiu subir de "classe", algo importantíssimo numa sociedade dividida em classes, em bairros "posh" ou "working class", em sotaques, como a de Londres. Harold Pinter, em "The Servant", raramente colocado no palco, dá mais uma mostra da sua influência hegeliana, o escravo e o senhor, Hamm e Clov ("Fim de Jogo", de Beckett), só que com "terno e gravata". Sim, Pinter é um Beckett mais silencioso e de alta classe e com terno e gravata. Nelson Rodrigues sempre foi um brasileiro apaixonado.

Mueller, um alemão que olhava na direção dos gregos e de Shakespeare e de seu mentor, Brecht. Como se vê, o século 20 foi pontuado por autores que deixaram sua marca por algo "unique" e, no entanto, semelhante. O quê? O bairrismo! E Harold Pinter? Difícil dizer. O "silêncio", a "crueldade"? Não, óbvio que não. Artaud é o mestre da crueldade, pelo menos em teoria. Pinter é o mestre de nada. É o teatro de gravata, é o teatro imitativo, mas não se sabe bem do que: um judeu deslocado, enraivecido desde sempre porque não conseguiu encontrar suas raízes acima ou abaixo do palco. Um teatro de "smoking, tuxedo". Eu não conheci Harold Pinter. Mas ouvi Backett falando várias vezes sobre ele. Não eram elogios, propriamente. Nem reclamações, tampouco. Eram desabafos.

GERALD THOMAS é autor e diretor de teatro



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