Gerald Thomas

May 13, 2015

Especial para a Folha, em Nova York

"Sir" Fernanda Montenegro já é a vencedora

Um dos momentos mais emocionantes da minha vida foi encontrá-la no palco pela primeira vez. Cheguei a passar mal na noite anterior, pensando cá com os meus botões: "Como é que se dirige Fernanda Montenegro? Dizer o que para ela? Como dizer o que para ela?".

Para mim, ela não era somente a maior atriz do mundo. Era também, ao contrário da maioria dos atores com quem já trabalhei, a atriz mais lúcida do mundo.

E assim, lúcida, amorosa, intelectual e instintiva como um animal faminto, ela transformou o ritual diário do ensaio e da representação teatral num exercício de extremas emoções e alegrias, com uma facilidade praticamente inimaginável.

Metade santa e metade palhaça, Fernanda Montenegro tem a medida exata do sublime e do ridículo que é representar a vida num palco.

É impressionante. Toda maquiada e de figurino passado, ela aparecia em pé na entrada do palco, morrendo de rir do seu personagem e da situação insólita que essa arte ao vivo oferece. Pois quem acha que Fernanda Montenegro é um show a cada vez que a cortina sobe não imagina a delícia que é vê-la na coxia se preparando, ou mesmo disputando com os outros atores aquele buraquinho da cortina pelo qual se vê o público.

Minutos antes do sinal que dá a partida ao espetáculo, ela brinca com todos, conversa livremente sobre qualquer assunto (de preferência algo sobre a vida prática), ri de si própria e ainda tenta combinar alguma mudança de cena de última hora.

Ou me pedindo pra encostar o carro, num penhasco da costa dinamarquesa. "Quero molhar a mão na água. Quero voltar aqui!" Lá de cima eu olhava, emocionado, como ela driblava as rochas e a vegetação até chegar ao mar.

Abaixada, com a palma da mão encostada na água, ela era uma miragem de algo sublime, impossível de descrever. Essa cena jamais deixará a minha memória.

Não me atrevo a imaginar o que ela pensava. Mas foi lá que eu a chamei, silenciosamente, pela primeira vez de "sir" Fernanda Montenegro.

Foi lá que a vi pequena, sozinha, vulnerável, mística. Acho que foi lá que entendi sua relação com Deus, sua humildade e extrema gratidão por sua existência. Esse momento mudou a minha vida.

"Ih, olhe aquele ali. Parece um dos coveiros!!!", sussurrava ela com a mão encobrindo a boca, como se quisesse esconder o riso sapeca. Eufórica e até um pouco encabulada, como uma criança, Fernanda apontava para um escandinavo velho, desdentado e corcunda, envolto numa manta marrom, que parecia ser um sentinela do castelo de Hamlet.

Estávamos no castelo de Helsingor, aquele que serviu de inspiração a William Shakespeare, para a maior peça de todos os tempos. "Vamos embora, meu filho, antes que ele resolva nos enterrar!", ela dizia rindo.

Foram oito países, mais de 30 cidades em quase quatro anos de vida comum. E, em cada um dos mais de cem espetáculos, eu vibrava, morria de rir e chorava, sempre como se fosse a primeira vez. Agachado no canto escuro da coxia esquerda, eu nunca deixei de pensar: "Meu Deus, essa aí é a Fernanda Montenegro.....veja você!".

Agora, faltam dois dias para o Oscar e estou sentado num café do SoHo, desesperadamente tentando terminar esse artigo, que quase completa um mês de frustrações diárias. Nunca foi tão difícil escrever. Nunca.

Quando tento imaginá-la sentada lá, ouvindo o seu próprio nome, eu viro um lamentável ser lacrimoso e não consigo continuar teclando.

Na parede desse café, várias fotos de atores e atrizes dos clássicos de Hollywood. Em cada moldura, vejo a cara dela, a maior atriz do mundo! Maior atriz de todos os tempos.

Amanhã vai ser igual a uma final da Copa do Mundo. Só que, diferente daquele sofrimento e da necessidade real de se marcar gols, quando chegar o momento decisivo, sagrado e demoníaco do "...and the Oscar goes to...", ela já será a vencedora.

Não sei o que estamos esperando para berrar seu nome na mais alta possibilidade dos nossos pulmões. Levando ou não aquela estatueta sinistra, ela é a mais absoluta vencedora que já pisou naquele célebre palco.

E, certamente, em meio a uma emoção incontrolável, ela estará completamente lúcida e consciente de todo o processo. E seu coração estará repleto das lembranças dos tantos companheiros que trilharam com ela esses anos todos de uma brilhante carreira.

Com ela certamente estará seu eterno companheiro, Fernando Torres, seus filhos Nanda e Claudio, Italo Rossi, Sergio Britto, Nelson Rodrigues, Celso Nunes, Samuel Beckett e todos os seus pares nessas décadas.

No momento em que pronunciarem o seu nome, Fernandona, no meio do estrondo dos milhões de urros de todos os brasileiros, eu estarei lhe dando o mais emocionado abraço e, sussurrando no seu ouvido, como fazia todas as noites depois do espetáculo, eu estarei dizendo: "Parabéns, minha sogra! Parabéns e muito obrigado por tudo".



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