ZERO HORA
FRONTEIRAS DO PENSAMENTO

Em busca de Arrabal e Thomas

Fronteiras do Pensamento reune hoje dois artistas especialistas em teatro e em polêmica: Fernando Arrabal e Gerald Thomas

As duas atrações de hoje do ciclo Fronteiras do Pensamento Copesul Braskem (inscrições já encerradas) pensam em tudo, menos em fronteiras.

Fernando Arrabal é escritor, dramaturgo, enxadrista, pintor, cineasta, amigo de Dalí, Buñuel e Picasso, sátrapa de patafísica e provocador em tempo integral. No início dos anos 60, foi um dos criadores do Teatro Pânico, assustando/fascinando crítica e pśblico ao propor peças como Cemitério de Automóveis e O Arquiteto e o Imperador da Assíria.

Gerald Thomas é diretor, dramaturgo, blogueiro, ghost writer de Barack Obama e provocador em tempo integral. Trabalhou com Heiner Müller, Samuel Beckett, Philip Glass e Julian Beck, fundador do grupo americano de vanguarda Living Theater. No currículo de Thomas, há montagens revolucionárias e viscerais como Electra com Creta e Um Circo de Rins e Fígados.

Arrabal e Thomas foram escalados pela trajetória de ambos na construção (e destruição) do que se ousa chamar de arte pós-moderna. Mas a dupla não deverá se contentar com isso: é muito mais divertido explorar o labirinto de conhecer a si próprio.

Marlene Bergamo/Folha Imagem

Um artista em trânsito

A idéia era conversar com Gerald Thomas sobre o que faz um artista seguir em frente. Mas Thomas faz questão de ignorar fronteiras e não descarta sequer abandonar a profissão de artista. Foi o que ele reafirmou por telefone na quinta-feira, a partir de São Paulo. No início da semana, ele tinha participado, nos Estados Unidos, do enterro de seu mestre e amigo Hanon Reznikov, um dos líderes do grupo americano de teatro de vanguarda Living Theater. Confira trechos da entrevista:

Zero Hora - O senhor já afirmou que não sabe sequer onde nasceu, e que a śnica coisa certa é a morte. É ela que o move? A superação dela?

Gerald Thomas - Não sei o que me move. No enterro do Hanon, vi pessoas que não encontrava há 23 anos, desde a morte de Julian (Beck, fundador do Living Theater). E vi que elas estavam lá com os mesmos valores, não precisaram se render pra mídia, chamar a atenção para si próprias, criar blogs, fazer não sei quantas peças por ano em sei lá quantos países, não precisaram ser capa de jornal em sei lá quantas línguas. Provavelmente estão mais em paz com elas mesmas do que eu. Isso me faz pensar em dar uma longa parada, quem sabe nem voltar ao teatro.

ZH - Estes questionamentos não são raros em sua vida, não?

Thomas - Mas este é mais profundo. Aquelas pessoas mudaram o mundo e o teatro. O Living Theater tirou o teatro das salas e colocou na rua, nas prisões, nos hospícios. E o que eu estou fazendo? Fazendo teatro careta, com poltrona. O que eu inventei? Nada. Nada parecido com Julian, com Beckett. Não honrei nem de longe as pessoas que me aceitaram como discípulo.

ZH - E por que eles o escolheram com discípulo?

Thomas - Talvez na esperança de que eu levasse a tocha. Tenho feito esse teatro que faz alguns rirem, outros dizerem que não entenderam nada, outros afirmarem que Eletra com Creta (1986) mudou a vida deles. Mudou porra nenhuma. Não mudou como o Living Teather, como Beckett, como Artaud.

ZH - Seus parâmetros são alguns dos maiores mestres do teatro mundial.

Thomas - Quer que eu nivele por baixo? Que eu coloque Zeca Pagodinho como exemplo?

ZH - Barbara Heliodora analisou seus śltimos trabalhos de forma bem diferente: elogiou Terra em Trânsito e criticou Rainha Mentira - Queen Liar, peça que o senhor assume ser inspirada em sua mãe e avó. Segundo Barbara, o senhor deixou o aspecto emocional interferir na atividade de criador. Concorda?

Thomas - Mas, querido, como artista eu devo fazer o quê? Descrever uma banana? Não sou autor social, não vou fazer o novo Hamlet, não discuto o preço do leite no palco. Estou aqui para colocar meu testemunho. Van Gogh se pintou sem orelha, Picasso se pintava com olho embaixo, olho em cima. Somos todos autobiógrafos.

Nenhum lugar e lugar nenhum

O encontro de Fernando Arrabal e Gerald Thomas hoje, no Salão de Atos da UFRGS, reśne uma coleção de simetrias bem ao gosto dos dois. Em primeiro lugar, de onde eles vêm? Arrabal nasceu no Marrocos espanhol, em 1932, mas há mais de 50 anos adotou a França como lar. Thomas é de 1954, diz que não sabe onde nasceu e se define como "100% brasileiro, 100% alemão, 100% americano e, no entanto, criado na Inglaterra". Uma de suas principais peças é Nowhere Man ("homem de nenhum lugar").

A dupla tem Samuel Beckett (1906 - 1989) em comum: Arrabal foi amigo de mesa de bar, conversa e tabuleiro de xadrez do irlandês, enquanto Thomas colaborou com ele no início dos anos 80, dirigindo alguns de seus textos.

Os dois têm vida e obra marcada por dramas familiares. Em 1938, o pai de Arrabal desapareceu depois de fugir da cadeia, onde estava cumprindo pena de prisão perpétua por não apoiar as forças de Franco. A mãe de Arrabal era franquista. Thomas inspirou-se em sua mãe e na avó para criar a atormentada peça Rainha Mentira - Queen Liar.

Os dois divergem no grau de exposição ao pśblico. Enquanto Thomas considera atualmente "sumir" da mídia, Arrabal se diverte até com um vídeo do YouTube que o mostra bêbado em um programa de TV espanhola, em 1989. Divergem também quando o assunto é política. Arrabal, mesmo perseguido e censurado pelo regime de Franco, tem enfado pelos jogos políticos. Thomas integra comitês do candidato Obama, e é da equipe de colaboradores que escreve os discursos do candidato democrata. Confira nesta página o que faz Arrabal e Thomas tão parecidos e tão diferentes.

A próxima etapa do Fronteiras será no dia 26 de maio, reunindo os cineastas Beto Brant (diretor de O Invasor) e José Padilha (de Tropa de Elite).



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