O relato teatral da pandemia

March 13, 2021

Tribo do Teatro, newsletter semanal do jornalista, escritor e ator Sérgio Fonta, direcionada à classe teatral e formadores de opinião do Rio de Janeiro - O RELATO TEATRAL DA PANDEMIA - Depoimento nº 48 Gerald Thomas - Gerald Thomas é um diretor turbinado por ideias instigantes e arrojadas. E por uma criatividade ininterrupta. Radicado em Nova York, estava com vários projetos a todo vapor, quando a pandemia fez tudo parar. Se no Brasil a data foi 13 de março, talvez nos Estados Unidos tenha sido pouco depois, mas lá também os teatros fecharam. O que não impediu Thomas de continuar em plena ebulição. Em seu depoimento para a TRIBO DO TEATRO, ficamos sabendo, em primeira mão, de quantos trabalhos interessantíssimos podem vir por aí.

A crise cultural se instalou em todo mundo, mas Thomas consegue ver um movimento interno positivo na obrigatoriedade de parar e nós também. O nosso fatídico 13 de março está fazendo um ano. O tipo do aniversário que ninguém gostaria de comemorar. Mas não se vai desistir por isso. Sem fugir da realidade, que é impactante, terrível e que nos ensina, cada vez mais, a importância da solidariedade, é preciso olhar para dentro e para os outros. Com foco e esperança. Como diz Gerald Thomas, apesar de tudo, sairemos melhores. - "Não sei se todos os teatros do mundo tiveram “ordem” de fechar no mesmo dia. Pelo menos na minha experiência, em Março do ano passado, os meus projetos ainda estavam em andamento. Gastrointestinal Prayer - de minha autoria, com a atriz e bailarina Julia Wilkins (ela fez DILUVIO) estava sendo ensaiado aqui em NYC pra estreia em Setembro, em Copenhagen. Claro, não aconteceu. Em Julho eu ainda estava lidando com um teatro despedaçado que me ofereciam em Governors Island (NYC). Está depredado como quase todo o resto da ilha, mas a Guarda Costeira (Coast Guard) - que administra a ilha - estava e estará disposta a torná-la viável novamente quando voltarmos à tal “normalidade”. Também já tinha dado início a mais duas novas versões de Terra em Trânsito, com a mesma Fabiana Gugli, pra quem escrevi a peça em 2006, e estou trabalhando numa nova Trilogia Beckett (três peças curtas de Beckett, as três interpretadas por Fabiana Gugli para mais um projeto SESC Online. E tenho me concentrado nos dois próximos livros: um sobre a cocaína e outro (um romance, meu primeiro e único, The Lost Case of a Brief Case - que será publicado assim que eu terminar a revisão e fizer umas mudanças.

O impacto da interrupção de tudo foi enorme. Gigantesco. Catastrófico. Não sou o dono da Pfizer e, portanto, sofro tanto quanto qualquer um, mas ainda acho prematuro fazer uma análise “objetiva” dessa pandemia, estando dentro dela (ainda). Fora o fato real de ser uma catástrofe, quero me manter longe das especulações. Ao mesmo tempo, acho ótimo o momento de hoje. Tivemos UM ANO em casa pra refletir, tivemos UM ANO pra produzir e colocar perspectiva nas coisas. Quem se sentir somente derrotado, que pena: não terá lucrado com essa crise que, como qualquer crise, é uma nova alavanca pra reorganização. (Além do mais, Trump é passado (temporariamente) e Biden / Harris estão no comando e, como Democrata devoto, quero ver os fascistas queimando no inferno ou se afogando no próprio veneno. Fiquei muito feliz ontem com a decisão do STF de arquivar o caso contra Lula e… ele ter se tornado, mais uma vez, elegível.) E o que eu espero para o pós-pandemia? Sei que sofro de “hipismo agudo” e até de um enorme romantismo, mas sei que sairemos mais conscientes, mais tristes, porém, melhores".



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