Thomas fala de sua dor em "Rainha Mentira"

Peça, que estreou no Rio em março, conjuga dor e solidão sem perder o humor Diretor evoca mãe morta recentemente na peça que estréia hoje em São Paulo; montagem faz dobradinha com "Terra em Trânsito"

Um Gerald Thomas com paciência de pedagogo conversava com cerca de 30 pessoas na sexta passada, em São Paulo, no curso onde fala sobre sua concepção do trabalho de ator. "Em vez de perder tempo tomando chope, vá ler Schopenhauer", diz Thomas, 53, aos que costumam afogar crise existencial em mesa de bar.

O diretor que cita Arthur Schopenhauer (1788-1860), filósofo de visão niilista, também relaciona "solidão" e "dor" ao menos quatro vezes durante o encontro no mesmo prédio do Sesc Anchieta, teatro em que apresenta a partir de hoje "Rainha Mentira/Queen Liar".

A peça curta, que estreou no Rio em março, faz sessões dobradas com "Terra em Trânsito". O solo de Fabiana Gugli, da tetralogia "Asfaltaram a Terra" (2006), surge em "versão .2, como "M.O.R.T.E. 2'", segundo o diretor, por causa de mudanças introduzidas após apresentações cariocas e nova-iorquinas. Thomas concorda que "Rainha Mentira" é exemplo de que solidão e dor são conjugadas em sua obra sem prejuízo do humor, desde a primeira criação, aos 19 -ele estima ter dirigido 78 peças ou óperas.

Sua mãe morreu em agosto passado. Ele não pôde ir ao enterro. Pediu a Gugli que lesse uma carta na cerimônia. Esse depoimento é base da dramaturgia, misto de ficção e realidade em que lembra a traumática relação da mãe com a avó, por exemplo, mas também quer dar notícias do que tem sido a pulverização de tragédias como a do Holocausto.

"Por favor, se interesse um pouco pela história da humanidade, ela não começou ontem", diz Thomas no workshop.

À Folha ele afirma que o estado de solidão "é absolutamente necessário", um alerta para ser e estar no mundo. Como no fluxo de consciência das peças, ele vai a Samuel Beckett, sua bússola: "Falhar. Falhar de novo. Falhar melhor".

Folha de Sao Paulo - August 7, 2007



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