Gargólios sintetiza envelhecimento e renascimento de Gerald Thomas

Folha de Sao Paulo, 11 de Julho de 2011

Teatro, tortura e vinho. Essa é uma síntese possível da última criação de Gerald Thomas, “Gargólios”, com sua recém-criada London Dry Opera Company. A nova companhia, formada por atores e atrizes europeus, mas ainda contando com colaboradores brasileiros, marca o bem-vindo retorno do artista à cena teatral, onde fez história, e sinaliza a continuidade de uma busca por caminhos desafiantes.

Gerald sempre foi, antes de um encenador, um dramaturgo, que escreveu suas peças no processo de ensaio, distribuindo sua voz por muitas personagens e figuras, mas nunca escondendo essa autoria irrenunciável, que dava identidade aos seus espetáculos. De algum modo nada mudou, mas a nova configuração da ex-Cia de Opera Seca, agora falando inglês, traz um frescor que fricciona a tradição constituída.

Depois da estreia em Londres, em fevereiro último, de “Throats” (gargantas), Gerald decidiu atirar o que tinha sido apresentado aos ingleses no lixo e reconstruir dramaturgia e encenação para a temporada paulistana.

Verdade que o tema dos escombros do atentado às Torres Gêmeas de Nova York ainda está presente. Também subsiste a crônica humorística de um mundo em pedaços, que já vinha fazendo em suas últimas montagens, tramada de trocadilhos com ícones da cultura pop e temperada com ironia frente ao público. Sem falar na visualidade esculpida à base de luz, fumaça e um senso especial para o insólito.

Talvez o novo nesse trabalho seja mesmo Gerald, em cena, tocando um baixo elétrico. Ele abre o espetáculo com o instrumento e permanece o tempo todo pontuando a trilha sonora do glorioso baixista do Led Zeppelin, John Paul Jones. O poder de afetação do som gravado é tanto incrementado como negado no risco do improviso. A ideia de que o teatro é uma câmara de tortura ganha corpo não só pela mulher nua dependurada e pingando sangue, ou pelo homem-bomba esticado no ar. A própria cena e o próprio autor instrumentista são evidências da pulsão de resgatar, em meio ao caos e por meio do caos, o canto do bode sangrado em sacrifício. Não é mais o artista herói que se projeta, mas seu negativo, na berlinda e atirando-se no abismo.

Os intérpretes contracenando, super-heróis impossíveis, emprestam sua condição de profissionais do Primeiro Mundo, vitalizados pelo olhar do estrangeiro errante, a esse jogo de cenas marcadas. Como na metáfora do hipódromo de Nietzsche, todos avançam retornando ao começo. Confundindo o vinho com o sangue, Gerald sintetiza seus próprios envelhecimento e renascimento como criador. Como diria Hélio Oiticica, o que ele está fazendo é música.



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