Gerald Thomas destrói peça para fazer “Gargólios”

Folha de São Paulo, 9 de Julho de 2011

Diretor diz ter se plagiado em “Throats” e muda “tudo” da peça exibida em Londres para estreia em São Paulo Experiência traumática do 11 de Setembro marca revisão da obra do autor, que também toca baixo na peça 

Uma mulher nua suspensa no ar se desfaz em “Gargólios”, espetáculo que marca a volta de Gerald Thomas à cena brasileira depois de três anos de afastamento.

A última obra que o autor e diretor apresentou no país foi uma carta de despedida ao teatro, em novembro de 2009, na qual dizia que a arte havia perdido o sentido.

Gotas de sangue caem insistentemente sobre o palco, mas isso não parece ter significado. “Uma mulher morta está sangrando sobre nós, nos mandando sinais. Que sinais? Somos muito rasos para entender”, diz um dos personagens na peça. “Gargólios”, que estreia hoje no teatro do Sesc Vila Mariana, em São Paulo, é resultado de uma crise do diretor, iniciada no catastrófico 11 de setembro de 2001. Thomas testemunhou o colapso do World Trade Center, em Nova York, de perto. Envolveu-se literalmente com a tragédia, ajudando no resgate. “De certa forma, a peça é uma tentativa de colocar para fora essa experiência”, afirma o diretor, que desde então vive uma clara fase de revisão.

Passou por um recesso artístico, trocou Nova York por Londres, onde fundou a Cia. London Dry Opera, grupo com o qual criou e recriou o espetáculo “Throats” (gargantas), rebatizado agora como “Gargólios”.

A obra é o que sobrou de “Throats”, se é que algo restou da peça. “Mudei absolutamente tudo. Não ficou uma vírgula do espetáculo anterior”, diz à Folha este autor e diretor que, desde os anos 1980, contribui para a renovação teatral do país. Thomas não sabe precisar seu desgosto com a primeira versão da peça. Diz apenas que acredita ter se plagiado.

“Vi uma coisa antiga minha. Não estava tomando os riscos necessários que eu acredito que qualquer artista deva tomar.” Os escombros do World Trade Center continuam no palco, mas o banquete para o Inferno apresentado em “Throats” sai de cena para dar lugar a um consultório psicológico, no qual super-heróis se revelam tão perdidos e fracassados quanto mortais.

INCOMPREENSÃO

A desordem do mundo da contemporaneidade contamina a dramaturgia. “O som que sai da boca dos atores não é pontuado logicamente, mas o que se presume que saia da boca de uma gárgula”, explica, usando como referência a experimentação de linguagem de Gertrude Stein e James Joyce.

“Eu não compreendo”, diz um super-herói diante de um Freud que combina terno e gravata com sapato de salto alto azul-celeste. A frase é apropriada pelos demais personagens e repetida continuamente. Transforma-se no que parece ser a verdadeira música-tema do espetáculo, neste teatro que busca traduzir o caos da existência de diversas maneiras. O diretor confessa não saber se sua nova criação é de fato teatro.

Rompe as fronteiras das linguagens artísticas, mesclando artes cênicas com dança e música -nesta última sua contribuição não é apenas conceitual.

Pela primeira vez, o encenador toca baixo no palco, interferindo ao vivo na trilha composta por John Paul Jones, ex-baixista e tecladista do Led Zeppelin.

Gerald Thomas dirige com os sentidos. “Fiz cenas que nem eu entendo direito por que estão lá, mas que têm o som da verdade”, diz. Ao silenciar-se, o gotejar do sangue da moribunda parece se amplificar.



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