“Carmem”, a ousadia volta aos palcos após 15 anos

Gerald Thomas tem ódio do realismo. Ele sabe, assim como toda a vanguarda histórica não se cansou de repetir, que não é o teatro que é artístico, mas a linguagem nele empregada que propicia a criação poética. Por isto investe firme nos procedimentos. “Carmem Com Filtro” evidencia-se como a mais arrojada criação em palcos paulistas desde há quase quinze anos – época triunfante de José Celso Martinez Corrêa e do teatro Oficina. Se aquele movimento foi hot, a atual criação de Thomas insurge-se cool e, para ser exato, ligth. Não é outra a intenção do filtro aqui interposto entre a cena e o público.

Síntese de diversas outras “Carmen” (a novela de Merimée, a ópera de Bizet e vários filmes surgidos recentemente), o espetáculo incorpora, igualmente, a dimensão mítica e de fetiche acumulada pela obra e pela personagem-título ao longo de sua existência, destilando isso tudo como uma baforada de fumo – mas não de tabaco. Toma o amor como um vício, a paixão como uma dependência, o mistério do sexo como um sortilégio mágico.

Pensado em conjunto com Heiner Müller (autor de “Quartett”, peça livremente inspirada nas “Relações Perigosas”, de Laclos, que o diretor já encenou em Nova York no ano passado e está ensaiando atualmente no Rio), o espetáculo de Gerald e Daniela Thomas nasceu como ópera-seca. Ou seja, uma fruta-passa: todos os conteúdos substanciais da matéria ali estão menos o melado, a gosma, o melodrama. Toda essa nova voga em torno de “Carmem” originou-se depois de 1981, conseqüência do brilhante espetáculo “A Tragédia de Carmen”, dirigido por Peter Brook – citado nessa realização de Thomas -, onde cinco elencos diferentes levaram na Europa e EUA uma versão reduzida da ópera de Merimée-Bizet.

Intervenção teatral

A excelência do trabalho de Gerald e Daniela insurge-se sob variados aspectos: na requintada visualidade (cenografia e figurinos trabalhados em função do desgaste do tempo), na requintada iluminação (articulando diferentes planos e dimensões na caixa preta do palco), na superposição das narrativas (d. José/Antônio Fagundes move-se a partir da novela; Carmen/Clarice Abujamra a partir do mito), na concatenada articulação das diferentes expressões artísticas possíveis ao teatro (pintura, escultura, música, gestualidade, odores, performance dos atores etc.). Mas todos esses procedimentos poderiam ser tomados como meros exercícios formais se não estivessem embasados numa visão estética unificadora, propondo uma verdadeira intervenção teatral.

Buscando o fluxo de sentidos que alimenta o banco da memória, a realização pretende construir uma metáfora incessante sobre Carmem. Usa do minimalismo o método (se assim podemos referir as pausas exasperantes, a desrealização espaço-temporal, os gestos diminutos, as repetições obsessivas) e da síntese melodrama/expressionismo a configuração externa (se assim podemos dizer dos desempenhos dos atores, das ressonâncias cenográficas, dos contrapontos narrativos criados entre os protagonistas). Bergson (quanto à noção de duração) e Bachelard (a poética dos sonhos, do espaço) são filósofos que endossariam esse espetáculo. Da mesma forma que Joyce ou Beckett, cujas alegorias ficcionais se aparentam enquanto universo poético mobilizado. Inegável coragem estética e de produção (o espetáculo apresenta-se em horários alternativos), “Carmem Com Filtro” destina-se a marcar a temporada. Materializa para nós brasileiros quinze anos de pesquisas teatrais que, por variados motivos que vão da censura ao provincianismo, deixamos de acompanhar em relação ao resto do mundo. Daí, talvez, sua chocante novidade mas agradável convite para o público repensar seus padrões teatrais. Agora com os filtros trazidos pela pós-modernidade.

Folha de São Paulo, Ilustrada (p .59) – Sábado, 19 de julho de 1986.



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