Gerald Thomas produz um desesperado delírio estético em 'Dilúvio'

Radio CBN - Arnaldo Jabor

Para além das pecinhas românticas ridículas e de musicais mambembes que lotam os teatros de São Paulo, está em cartaz uma peça do dramaturgo e diretor Gerald Thomas, que é um furo no tempo de hoje por onde lembramos o que o Grande Teatro pode ser. Chama-se “Dilúvio” e é um desesperado delírio poético sobre o nosso tempo com gosto de apocalipse. Isso.

Com o mundo dominado por dois psicopatas, o porquinho Kim e o canalha Trump, estamos talvez vendo um antigo desejo, uma pulsão de morte que há na humanidade como há também nas pessoas. A fome da morte é forte. A matéria quer morrer, quer o sossego do nada como profetizou Freud. De um mundo infestado de ódio e de mentiras, surge a idéia do suicídio. Isso.

O suicídio é um ato de quem teve informações excessivas, insuportáveis para o seu cérebro processar. O suicídio é o pavor de viver sem certezas. Ninguém tem mais onde se agarrar. Nem a Deus, nem ao diabo. A peça “Dilúvio” retrata o intenso agora como prenúncio de uma Terceira Guerra. Estamos com fome de algum acontecimento real e até a Guerra pode ser uma busca de concretude. Já se faz nos Estados Unidos, no Pentágono até a contabilidade de quantos mortos haveria na Guerra da Coréia contra os Estados Unidos. Já existe uma curiosidade perversa, um desejo de ver a grande tragédia. No entanto, o que interessa é que a peça é um alívio, não só porque paramos de ver o lixo da cidade durante duas horas, como porque vemos que a desgraça não apagou a imensa criação de beleza plástica e de beleza bailarina mesmo sobre a finitude do mundo.

Gerald é também um coreógrafo. No palco, vemos um bailado flutuante, voejando, compondo as imagens mais poéticas e inquietantes do que temos visto e vivido. A peça é o melhor espetáculo dos último tempos aqui. Vejam “Dilúvio” para se lembrarem daquela coisa esquecida chamada Grande Arte.



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