A máquina teatral de Gerald

Crítica Teatro: 'Terra em trânsito' e 'Rainha mentira'

No espetáculo duplo de Gerald Thomas, em cena no Oi Futuro, a força da imagem da contemporaneidade, em crônica desdobrada em manifesto teatral, o diretor despeja, como num fluxo de pensamento, aquilo que pensa e aquilo de que duvida. Se a encenação é obra do acaso total, como teoriza Gerald Thomas, a vida sob sua perspectiva cênica acompanha o mesmo fluxo, manifestada como forma operística, desidratada de verdades, massacrada por mentiras. Em Terra em trânsito, o que aparece está se movendo em torno de uma pasta de palavras, incapaz de compreender o que se está passando, mistura de fígados expostos à trituração da atualidade, preparada para ser servida como um patê autofágico de um tempo desesperado.

A cantora que se prepara no camarim para entrar em Tristão e Isolda se exalta, à custa de cocaína e de provocações radiofônicas de um Paulo Francis delirante, em diálogo com um cisne que andou por Woodstock e cita Haroldo de Campos. Esse cisne, um judeu de posições heterodoxas, faz contraponto à cantora que de si sabe apenas que há algo difuso que a persegue, um caudal de palavras que acossam seus sentidos, aos quais atribui migrações a lugares improváveis, como a cabeça de George Bush.

Repleto de referências, Terra em trânsito retoma o humor no teatro de Gerald Thomas, até então restrito a Um circo de rins e fígado, como atenuante da visão de finitude, na qual a morte individual é espelho da morte coletiva. Ao se ver usurpada de sua voz no palco, substituída por outra cantora, a mulher confronta-se consigo mesma numa aterrorizante perspectiva de chegar ao fim, de não ter mais lugar, de sucumbir ao que as palavras e as tentativas de agir não alcançam. A metáfora se conclui.

Fabiana Gugli, identificada com o estilo de Thomas de conduzir os atores, impõe coreografia nervosa e arrebatada, sem prescindir de humor sorrateiramente crítico diante da efusão verbal da personagem. A atriz vence, com a bravura de sua interpretação inteligente, as múltiplas referências, algumas delas quase secretas, como os comentários sobre o teatro de Harold Pinter, triturando-as num tom de maliciosa frivolidade. Pancho Capelletti, como a voz e o manipulador do cisne, tira o melhor partido da estranha criatura de tantas incertezas intelectuais.

Rainha mentira, a segunda peça do programa, é diferente, sendo o mesmo. Neste desabafo sobre uma perda, Gerald Thomas assume tom pessoal, dando nomes e significados próprios a episódio de sua vida, no qual não se furta de exibir sentimentos. Ao mesmo tempo, integra essa "história particular" à corrente da memória do século passado, em que fatos determinantes jogaram a vida de uma alemã a lugares perdidos, sem caminho de volta.

Aquele que deixa o café da manhã na mesa e parte, na véspera de grandes desgraças, para ser herói anônimo de diásporas, passa por bombardeios, sobe em trens lotados que trafegam de meia em meia hora, num "salve o que puder", percorrendo a escuridão do nosso tempo. Não há bombeiros que consigam apagar esses enormes incêndios ou impedir que torres de impérios, de meias-verdades ou de mentiras, de fantasias abandonadas e conhecimento acumulado, desabem como construções fictícias, deixando à mostra o vazio de mundos paralelos. Pela voz de Gerald Thomas, os atores falam de mortes em que a felicidade fugaz está na revisita às lembranças da geografia perdida e no aviso definitivo de que não é mais preciso viver.

Gerald Thomas modela essa despedida-depoimento na sua poderosa máquina teatral, impulsionada por imagens esfumaçadas e cinzentas de um tempo disforme e descolorido. No palco vazio, apenas com projeção, quase abstrata, de torres incendiadas, com flashes de declínio físico e pilhas de livros sugerindo paralelismos, a luz é um elemento decisivo para movimentar o poder desta máquina. Cenas como a das lâmpadas que descem em ritual de enterrar, e se apagam, ao anúncio de tantos mortos, compõem encenação que pulsa de teatralidade, que antes de se fechar num formalismo de repetições, reafirma-se como poética cênica única.



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