FOLHA DE SAO PAULO

Âncora no peito

Gerald Thomas volta ao palco do La MaMa, teatro de NY onde começou a carreira em 1984

Em janeiro de 1984, aos 29 anos, o carioca Gerald Thomas Sievers lançou âncora no teatro com duas fortes referências em sua carreira: um texto em prosa do irlandês Samuel Beckett (1906-89), "All Strange Away", encenado no La MaMa, justamente o histórico teatro de Nova York voltado para espetáculos experimentais.

Há cerca de duas semanas, 20 anos depois, o acaso conduziu Thomas de volta ao começo. Em Nova York, visitou a fundadora do La MaMa Experimental Theatre Club, Ellen Stewart, e foi chamado para assumir uma pauta de três semanas, em março.

A despeito do curto prazo para erguer um espetáculo, Thomas não disse não à "mãe", como trata aquela que o acolheu entre os artistas responsáveis pelo respeito angariado pelo La MaMa desde 61 -como o diretor romeno Andrei Serban, o polonês Grotowski e o grupo americano Mabou Mines.

Recuperando-se de uma crise de pneumonia, Stewart disse à Folha que convidou Thomas por causa dos trabalhos de vanguarda que ele apresentou no La MaMa (leia alguns no quadro).

O movimento de (eterno) retorno apanha Gerald Thomas, às voltas com os 50 anos de idade, a se completarem no dia 1o de julho. Não é por acaso que ele batiza o novo projeto para o La MaMa de "Anchor Pectoris", uma referência ao termo que ilustra a depressão também como uma âncora no peito. "E bota crise nisso. Não me lembro de nada igual."

O plano pessoal toma algum espaço quanto a revisões familiares e à condição de "homem-de-lugar-nenhum", que ele já evocara no título de uma de suas encenações, "Nowhere Man" (96).

Thomas "mora" em hotéis do Rio de Janeiro (onde estava esta semana), de Nova York (onde acaba de alugar apartamento) ou no apartamento fixo de Londres (onde viveu no último ano). "Quando não se tem raízes aos 50 anos, isso te pega de maneira fenomenal", afirma o diretor.

"Notas de Suicídio"

A condição lhe provoca muito barulho nos pensamentos ao travesseiro. Parte dessa angústia o encenador compartilha, há três meses, com um diário que intitula "Notas de Suicídio". Pode resultar numa autobiografia que arrefeça a crise de identidade (mas não só) e abra novo ciclo para o artista, ainda que Thomas não enxergue isso. "Pode ser, mas não estou conseguindo achar esta energia."

Tudo isso é o pano de fundo existencial, mas "Anchor Pectoris" quer se afirmar, antes de mais nada, como teatro político. "É a primeira vez que eu faço uma peça política", diz Thomas.

O alvo dileto é a era "maniqueísta" de George Walker Bush, o presidente americano. Thomas quer falar da "decadência e horror com os quais o mundo está lidando por causa dessa administração, principalmente após os ataques ao World Trade Center".

Mas não faltará ironia, afirma o diretor. "A peça terá o tom humorado de sempre que, por vezes, soa como um pesadelo."

Um pesadelo que se mantém presente para o diretor é o do processo movido contra ele no Rio, depois que mostrou as nádegas para o público no final da estréia da ópera "Tristão e Isolda", no Teatro Municipal.

Thomas perdeu a primeira batalha na Justiça, que se recusou a trancar a ação movida contra o diretor devido ao episódio. A próxima etapa é uma audiência marcada para o dia 17 de fevereiro. O diretor deverá estar ensaiando a nova peça em Nova York.

Numa das passagens de "Anchor Pectoris", o encenador quer mencionar o episódio "genericamente". Uma voz em voz vai reclamar: "Thomas, vc havia prometido". E ele: "Mas eu só estou usando a minha bunda para dizer que o Brasil está entrando em uma nova censura".

Apesar do lastro, a dramaturgia será curta, com boa parte das falas gravada. Foi assim nos diálogos em "off" da ópera "Mattogrosso" (1989), que, aliás, tratava do "suicídio de uma floresta" e fazia citações a "O Anel dos Niebelungos", do compositor alemão Richard Wagner (1813-83).

Atores que gravitam em torno do La MaMa estão escalados para um encontro com Thomas na segunda semana de fevereiro. É a partir daí que vão acontecer os ensaios para a montagem, que cumprirá temporada numa das salas do La MaMa (The Annex), entre os dias 4 e 21 de março, segundo informa o assessor Jonathan Slaff.

Gerald Thomas estima ter dirigido 69 criações, das quais se orgulha pelo menos da metade. "Deixei minha marca no mundo, gerei muitos artigos sobre mim ou escritos por mim, além de livros que tratam da minha obra", diz o, possivelmente, mais idiossincrático dos encenadores do teatro brasileiro contemporâneo.



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